Você recebe um e-mail com um coração amarelo e dicas de meditação. Dez minutos depois, chega uma notificação urgente no Slack sobre um deploy que falhou e a pressão recomeça como se aquele e-mail nunca tivesse existido.
Na rotina de tecnologia, nós nos tornamos especialistas em monitorar a saúde da infraestrutura, mas muitas vezes falhamos em observar a saúde de quem sustenta o código.
É muito comum que as empresas utilizem o mês de setembro para falar sobre prevenção ao suicídio e acolhimento. No entanto, o que acontece nos outros onze meses do ano dentro das squads?
A responsabilidade das organizações vai muito além de publicar um post ou distribuir brindes amarelos. Cuidar da saúde mental no trabalho envolve olhar para o tamanho do backlog, para a cultura do on call permanente e para a forma como o erro é tratado nas retrospectivas.
Quando o ambiente é pautado pela disponibilidade constante e pela cobrança desproporcional, o acolhimento vira apenas uma estratégia de marketing.
Muitos profissionais de tecnologia relatam que sentem medo de admitir o cansaço ou uma dificuldade emocional porque temem ser vistos como o elo fraco da equipe. Existe uma pressão silenciosa para performar como uma máquina, ignorando que o esforço criativo e técnico exige descanso real.
Abaixo, compartilho um texto que circula nas redes e que nos convida a pensar sobre essa inconsistência entre o discurso e a prática diária:
Em janeiro, João tinha TOC e foi chamado de louco.
Em fevereiro, Paula era bipolar e a chamaram de doida.
Em março, Júlia tinha crises de ansiedade e diziam para ela focar no presente.
Em abril, Leandra tinha anorexia e ouvia as pessoas rindo e falando dela.
Em maio, Maria teve síndrome do pânico e disseram que era frescura.
Em junho, Pedro teve depressão e foi chamado de fraco.
Em julho, Lucas descobriu a esquizofrenia e disseram que era invenção da sua cabeça.
Em agosto, Daniel teve transtorno da personalidade borderline e falavam que ele queria chamar atenção.
Em setembro, tudo ficou amarelo. As pessoas começaram a entender todos os problemas e nos estenderam a mão. Nos medicaram e publicaram textos em suas redes sociais para nos apoiar.
Porém, em outubro, continuaram a nos chamar de loucos e fracos. Também diziam que nos faltava fé.
Sua vida é tão boa. Como pode reclamar?, eles diziam.
Em novembro, Pedro se matou.
Mas ele era tão jovem. Era uma pessoa tão boa.
Porém, tudo o que Pedro queria era que todos os meses fossem amarelos. Que os julgamentos acabassem e que as pessoas realmente entendessem que os problemas psicológicos não são escolhas nossas e que precisamos de ajuda. Não apenas em setembro, mas em todos os meses.
Então, a partir de hoje, faça o Setembro Amarelo estar presente em todos os dias do ano, pois, agora mesmo, você pode estar ao lado de um Pedro e não saber.
Precisamos falar sobre saúde mental quando o sistema está estável, mas também quando o prazo está apertado. Acolher as vulnerabilidades é uma tarefa diária de lideranças e colegas, exigindo que a empatia saia das campanhas sazonais e entre nas daily meetings.
Um ambiente de trabalho saudável é aquele que reconhece que o profissional é, antes de tudo, uma pessoa.
Como tem sido para você perceber essa diferença entre as campanhas de conscientização e a realidade da sua rotina profissional?
Caso esse tema faça sentido para você ou para a sua equipe, podemos conversar sobre como construir espaços de trabalho mais humanos e menos exaustivos.

