Le travail se termine à l'écran, mais continue dans la tête.

Alexandre Bartoli · Psychologue · CRP 04/86889

“Você já questionou a natureza da sua realidade?” – Bernard Lowe, Westworld, temporada 1, episódio 1

Logo no primeiro episódio de Westworld, Bernard faz a Dolores uma pergunta que atravessa toda a série: “Você já questionou a natureza da sua realidade?”

Para quem nunca assistiu, Westworld é uma série de ficção científica ambientada em um parque futurista habitado por androides quase indistinguíveis dos seres humanos. Chamados de anfitriões, eles existem para interpretar histórias previamente programadas. Todos os dias, acordam, cumprem seus papéis, respondem ao ambiente e repetem o mesmo roteiro sem perceber que estão presos em um ciclo.

Quando alguma coisa sai do lugar, suas memórias são apagadas e tudo recomeça. Aos poucos, porém, algumas lembranças permanecem. Pequenos incômodos começam a revelar que aquilo que parecia natural talvez fosse apenas uma repetição tão antiga que já não era percebida.

Guardadas as devidas proporções, esse trem também pode acontecer na rotina de quem trabalha com tecnologia.

Você fecha o notebook, mas continua revisando mentalmente o que ficou pendente. Lembra do incidente ainda não resolvido, do pull request que ninguém revisou ou daquela mensagem que chegou justamente quando você pensou que, naquele dia, conseguiria encerrar o expediente mais cedo.

O corpo saiu do trabalho. A cabeça, não.

O jantar está ali, a conversa está ali e a vida está ali. Mesmo assim, uma parte da mente continua antecipando problemas, calculando riscos e esperando a próxima notificação.

Na tecnologia, esse roteiro pode se instalar de maneira quase imperceptível. O dia começa com uma olhada nas mensagens antes mesmo de colocar o pé no chão. Depois vem a primeira reunião, enquanto a alma ainda está procurando o café. Ao longo das horas, aparecem novas demandas, mudanças de prioridade, retornos que não chegam e problemas que precisam ser resolvidos. Em algum momento, surge um bug que, claro, resolveu aparecer somente em produção.

Enquanto isso, o backlog continua lá, firme e forte, igual parente que chega para o almoço e vai ficando para o café da tarde.

No começo, você chama esse ritmo de fase. Depois, chama de responsabilidade. Com o tempo, nem chama mais de nada. Apenas continua.

No oitavo episódio da primeira temporada de Westworld, o Dr. Ford observa que “vivemos em loops tão estreitos e fechados quanto os anfitriões”. Talvez seja justamente isso que torne certos ritmos de trabalho tão difíceis de perceber.

A repetição vai se tornando normal: acordar, responder, resolver, entregar, permanecer disponível e recomeçar no dia seguinte, como se esse fosse o único modo possível de viver a carreira.

Minha relação com esse tema não começou somente na Psicologia. Trabalho com tecnologia desde 1995 e já vivi esse universo como programador, professor, gestor e pesquisador. Por isso, conheço não apenas as ferramentas e as entregas, mas também a sensação de que sempre existe alguma coisa esperando para ser resolvida.

Conheço também aquele pensamento que aparece depois do expediente: “Vou só verificar uma coisa”. Quando você percebe, aquela única coisa abriu outras sete.

Nos últimos anos, passei a olhar de maneira mais direta para as relações entre trabalho e saúde mental. Essa aproximação entre tecnologia e Psicologia me fez perceber que o problema nem sempre está apenas na quantidade de horas trabalhadas. Muitas vezes, ele começa quando o trabalho continua trabalhando dentro da pessoa.

Mesmo longe do teclado, a mente segue revisando conversas, antecipando falhas e imaginando possíveis consequências. O expediente termina no calendário, mas não termina no corpo. A pessoa está em casa, mas uma parte dela continua de plantão.

Nem sempre isso aparece como uma grande crise. Pode surgir como irritabilidade, dificuldade para dormir, culpa ao descansar, medo de decepcionar ou sensação de que nunca se está fazendo o suficiente. Em outros momentos, aparece como um vazio difícil de explicar: a vida continua funcionando, mas alguma coisa por dentro parece desconectada.

Trabalhar com tecnologia exige responsabilidade. Sistemas caem, clientes cobram, prazos apertam e produção assusta. Sexta-feira depois das 16 horas deveria vir acompanhada de um aviso de perigo, embora nem sempre venha.

Ainda assim, trabalhar com problemas complexos não deveria significar viver como se tudo fosse uma emergência. Existe uma diferença importante entre ser responsável e estar permanentemente disponível. Também existe uma distância entre gostar do que se faz e permitir que o trabalho se transforme na principal medida de valor pessoal.

Para algumas pessoas, descansar não significa apenas interromper uma atividade. Significa correr o risco de não se sentir útil, competente ou necessária. Quando o reconhecimento foi construído em torno da capacidade de resolver problemas, a pausa pode parecer menos descanso e mais ameaça.

É nesse ponto que a identidade começa a se misturar com a entrega.

A pessoa se torna aquela que resolve, responde, sabe, suporta e não pode falhar. Aos poucos, pedir ajuda parece fraqueza, estabelecer limites parece falta de compromisso e admitir cansaço parece incompatível com a imagem de um profissional competente.

Ela continua entregando, participando das reuniões e mantendo tudo funcionando. Por fora, nada parece fora do lugar. Por dentro, porém, já não sabe por quanto tempo conseguirá sustentar aquele ritmo.

Em Westworld, o ciclo começa a se romper quando os personagens percebem a própria repetição. Na vida profissional, talvez o primeiro movimento também seja reconhecer o roteiro que se instalou: trabalhar, resolver, entregar, permanecer disponível e recomeçar no dia seguinte, como se essa fosse a única maneira possível de viver a carreira.

Você não é apenas o código que escreve, a sprint que entrega ou o cargo que ocupa. Sua experiência profissional tem valor, mas não deveria ocupar todos os espaços da vida. Antes da stack, da senioridade, das certificações e das metas, existe alguém que sente, se cansa, precisa de vínculos e também necessita de uma vida fora do modo de operação.

Pode parecer óbvio, mas muita gente só percebe o quanto se afastou de si quando já não consegue descansar sem culpa. Qualquer silêncio começa a parecer improdutivo. Ficar sem notificações provoca uma espécie de coceira mental. O corpo está em casa, mas a cabeça continua na empresa.

Sair desse loop não significa abandonar a carreira, comprar uma Kombi e vender queijo na Serra da Mantiqueira, embora, dependendo do dia, a ideia pareça bastante razoável.

Também não significa se tornar menos ambicioso, responsável ou comprometido. Pode signific compreender por que dar conta de tudo se tornou tão necessário. Pode envolver reconhecer há quanto tempo o descanso deixou de ser descanso, quantas necessidades foram adiadas porque sempre havia algo mais urgente e quanto do valor pessoal ficou preso às entregas.

No trabalho, aprendemos a perguntar o que ainda falta fazer, qual é o próximo prazo e o que precisa ser corrigido. Talvez seja importante acrescentar outra pergunta: o que em mim ficou esperando enquanto eu tentava dar conta de tudo?

Não existe uma resposta pronta. Para algumas pessoas, será necessário reconstruir limites entre trabalho e vida pessoal. Para outras, será importante compreender por que errar, pedir ajuda ou dizer “não” produz tanta culpa. Também pode ser preciso olhar para o medo de perder desempenho, decepcionar alguém ou deixar de ser reconhecido.

Na psicoterapia, é possível observar essa relação com o trabalho sem transformar descanso em culpa ou limite em fracasso. Não para abandonar a carreira, mas para compreender como a competência deixou de ser apenas uma qualidade profissional e passou a funcionar como uma obrigação permanente.

Na escuta clínica, essas questões muitas vezes aparecem antes mesmo de a pessoa perceber que está sofrendo. Ela ainda trabalha, entrega, responde às mensagens e participa das reuniões. A vida continua funcionando no papel, embora por dentro o esforço para manter tudo em operação esteja se tornando cada vez maior.

Reconhecer esse loop pode ser o primeiro passo para construir uma relação mais sustentável com o trabalho.

Fechar o notebook é simples. Difícil, às vezes, é convencer a mente de que o expediente terminou.

E você: quando fecha o notebook, consegue encerrar o expediente também por dentro?

Alexandre Bartoli Monteiro

Psychologue – CRP-04 / 86889

À propos de l'auteur

Alexandre Bartoli

Psychologue clinicien, CRP 04/86889. Consultations psychologiques en ligne pour adultes, en portugais brésilien, avec une approche clinique en thérapie cognitivo-comportamentale.

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