
Quando a reunião termina, mas a sua cabeça continua nela
Faltam cinco minutos para a daily.
Você abre as anotações, revisa rapidamente o que precisa dizer e pensa em como explicar aquele problema em inglês sem parecer inseguro.
Talvez você saiba exatamente o que aconteceu no projeto.
Talvez domine tecnicamente o assunto.
Mesmo assim, antes de abrir o microfone, aparece aquela dúvida:
Será que vou conseguir explicar isso do jeito certo?
Trabalhar em um time internacional pode ampliar experiências profissionais, contato com outras culturas e possibilidades de carreira.
Mas também pode exigir um esforço que nem sempre aparece para quem olha de fora.
Não é apenas trabalhar.
É trabalhar enquanto você acompanha outro idioma, diferentes sotaques, formas de comunicação, referências culturais e expectativas profissionais.
Em uma reunião técnica, por exemplo, você pode estar tentando entender o problema, organizar uma resposta, escolher as palavras em outro idioma e ainda observar como as outras pessoas estão reagindo ao que você diz.
Tudo isso acontece quase ao mesmo tempo.
E existe outro ponto.
Quando você é brasileiro trabalhando fora do país ou em uma equipe internacional, pode surgir a sensação de que precisa demonstrar o tempo inteiro que merece estar ali.
Então você revisa mais uma vez antes de enviar.
Pensa bastante antes de discordar.
Repete mentalmente uma frase antes de falar.
Volta à reunião depois que ela terminou e se pergunta se poderia ter respondido melhor.
A dificuldade é que esse estado de atenção não necessariamente termina quando você fecha o notebook.
O trabalho acaba, mas a conversa continua na cabeça.
Você lembra da pergunta que recebeu.
Pensa na entrega do dia seguinte.
Revê mentalmente uma decisão.
Tenta antecipar aquilo que pode dar errado no próximo sprint.
E, quando isso começa a ocupar também o seu tempo de descanso, talvez o problema já não seja apenas uma reunião em inglês.
Pode existir uma rotina de cobrança que está acompanhando você para fora do trabalho.
Sua capacidade profissional não é medida pela velocidade com que você encontra uma palavra em outro idioma.
Precisar de alguns segundos para formular uma resposta não significa conhecer menos.
Ter sotaque também não significa dominar menos o assunto.
E não compreender imediatamente uma expressão em uma reunião não apaga tudo aquilo que você sabe fazer.
Talvez seja importante perceber quanto do seu esforço diário está sendo utilizado para trabalhar e quanto está sendo utilizado para tentar provar que você é suficientemente competente.
Essa diferença importa.
Porque, quando cada reunião parece uma avaliação e cada erro parece uma ameaça àquilo que você construiu, trabalhar pode se tornar um exercício permanente de vigilância.
E ninguém consegue permanecer em estado de alerta o tempo inteiro sem sentir algum impacto.
A pergunta talvez não seja apenas se o seu trabalho é exigente.
Pode ser:
Quando você fecha o notebook, consegue realmente sair do trabalho?
Ou alguma parte de você continua naquela reunião?
Quando a ansiedade, a autocobrança ou a dificuldade de se desligar começam a ocupar espaço demais na rotina, a psicoterapia pode oferecer um lugar para compreender melhor esse funcionamento e construir outras formas de lidar com essas situações.
Em português do Brasil e sem precisar passar metade da conversa explicando como funciona uma daily, um sprint ou um pull request.
Alexandre Bartoli
Psicólogo – CRP-04 / 86889