Alexandre Bartoli – Psicólogo para Brasileiros no Exterior

Muito Além de “Deletar o App”: Como a Psicoterapia Auxilia na Compreensão e no Manejo da Compulsão por Apostas na Rotina Tech

A regulamentação das plataformas de apostas digitais (bets) no Brasil e a busca por mecanismos formais de autoexclusão trouxeram à tona uma decisão importante: o momento em que a pessoa reconhece a necessidade de interromper um ciclo compulsivo.

Contudo, como psicólogo, ex desenvolvedor de software e professor universitário na área de tecnologia, conheço de perto a rotina de profissionais que passam o dia lidando com problemas complexos, decisões rápidas, prazos, pressão por resultados e uma exigência constante de atenção. Nesse contexto, é comum levar para a própria vida a mesma lógica usada no trabalho: identificar o problema, encontrar a causa e buscar uma solução rápida. Quando surgem comportamentos compulsivos, ansiedade ou dificuldade de se desligar, a tendência pode ser tratar tudo como se fosse apenas mais um problema técnico a ser corrigido, quando, na prática, o funcionamento psicológico costuma exigir uma compreensão mais ampla do que está acontecendo.

Na prática clínica, desinstalar aplicativos ou bloquear acessos atua como uma contenção inicial necessária. Mas se a sobrecarga de trabalho, o tecnoestresse e a necessidade de anestesiar a mente ao fechar o notebook permanecerem sem compreensão, a tendência é que o cérebro continue buscando outras válvulas de escape para despressurizar a tensão.

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Para quem atua no setor de tecnologia, esteja no Brasil ou no exterior, a rotina pode envolver plantões on call, reuniões em outros fusos, comunicação em outro idioma, pressão por disponibilidade e, em alguns casos, o esforço adicional de adaptação cultural. Por isso, quando há um transtorno relacionado ao jogo, a compreensão clínica precisa considerar não apenas o comportamento em si, mas também as condições concretas de trabalho, de vida e de inserção social dessa pessoa.

1. Mapeando as Distorções Cognitivas da Mente Exausta

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) abordagem de ampla evidência científica no tratamento do transtorno do jogo atua na identificação e reestruturação de pensamentos automáticos que sustentam o impulso de apostar:

Compreender esses padrões sob a ótica clínica permite ao indivíduo desenvolver estratégias realistas para o manejo dos impulsos, sem promessas de controle mágico ou soluções imediatas.

2. A Transição da Mesma Tela e o Manejo do Ambiente

Para o profissional de tecnologia, a jornada de 8 a 10 horas diante do computador (alternando entre Slack, Jira e IDEs) mantém o sistema nervoso em estado de alerta permanente. Ao encerrar o expediente, a transição para a aposta ou o jogo na mesma tela surge como uma tentativa desorganizada de buscar um pico rápido de dopamina para “desligar” o cérebro.

O acompanhamento psicológico auxilia na reestruturação do ambiente e no controle de estímulos:

3. Compreendendo a Função Emocional: O que a aposta estava anestesiando?

Tratar o uso problemático de apostas requer investigar a função que esse hábito cumpria na rotina:

Ao compreender que o comportamento aditivo operava como um anestésico para o esgotamento, a psicoterapia possibilita a construção de recursos saudáveis para a regulação emocional e o autocuidado.

4. Uma Escuta Qualificada que Compreende o Seu Universo

Superar o ciclo da compulsão exige um espaço seguro de escuta onde a pessoa não precise “explicar do zero” o que significa o peso de uma entrega sob pressão internacional, a cobrança por atualização constante ou a dor da solidão migratória.

A intervenção clínica pode envolver o suporte integrado com médicos psiquiatras (quando há necessidade de avaliação para quadros associados de ansiedade, depressão ou insônia), participação em grupos de apoio (como Jogadores Anônimos) e o acompanhamento psicoterápico individual em português.

Cuidado Clínico e Responsabilidade

Continuar entregando resultados no trabalho não significa estar bem por dentro. Buscar ajuda especializada é um passo fundamentado em coragem e responsabilidade para compreender a origem da tensão diária e reestruturar a relação com a rotina, o trabalho e a vida.

E na sua rotina? Como costuma ser a transição no momento em que você fecha o computador ao final do expediente? Você já percebeu essa necessidade quase automática de buscar outro estímulo ou tela para conseguir “desligar” a cabeça?

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Alexandre Bartoli Monteiro

Psicólogo | CRP 04/86889

ℹ️ Aviso Ético e Psicoeducativo: Este conteúdo possui finalidade exclusivamente informativa e educacional. Não substitui a avaliação psicológica individualizada realizada por profissional habilitado.


🆘 Canais de Apoio e Emergência: 

No Brasil: Em situações de crise, entre em contato com o CVV (188), procure um CAPS AD ou a UBS da sua região. Em emergências graves, acione o SAMU (192).
No Exterior: Acesse o serviço de urgência em saúde mental ou o número de emergência do país onde você reside.

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