Quando a Inteligência Artificial Escreve o Flerte: o que a busca por eficiência revela sobre nossa exaustão emocional

Alexandre Bartoli · Psicólogo · CRP 04/86889

Você saberia que 26% dos solteiros nos EUA já usam Inteligência Artificial para flertar e criar mensagens de abertura no Tinder um salto de 333% em um ano. Mas o que parece eficiência na verdade revela uma profunda exaustão emocional.

Você já pediu à inteligência artificial para escrever um e-mail difícil, revisar uma apresentação ou encontrar a melhor forma de responder a uma mensagem profissional. Mas o cenário muda quando a mensagem é um flerte, talvez ocorrendo em um aplicativo como o Tinder, Bumble e Badoo. A inteligência artificial começa a ocupar um espaço que, até pouco tempo atrás, parecia essencialmente humano: o território da atração, da vulnerabilidade e do encontro.

Ao falar de encontro, é difícil não lembrar de Vinícius de Moraes e Baden Powell em Samba da Bênção: “A vida não é de brincadeira, amigo. A vida é arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida.”. Talvez essa seja uma das grandes contradições do nosso tempo. Se a vida é a arte do encontro, com toda a sua imprevisibilidade e risco, o que acontece quando entregamos a um algoritmo parte da tarefa de nos apresentar ao outro?

Uma reportagem da Fast Company Brasil, baseada em dados do estudo Singles in America (2025), mostra que 26% dos solteiros norte-americanos já utilizavam inteligência artificial para melhorar suas experiências de relacionamento um crescimento de 333% em relação ao ano anterior. Os usos variam desde a personalização de perfis até a elaboração de mensagens de abertura e análise de compatibilidade. A tecnologia assume a função de um “guru amoroso digital”.

À primeira vista, parece apenas mais uma aplicação eficiente. No entanto, há uma pergunta incômoda por trás desse fenômeno: por que sentimos a necessidade de otimizar até o flerte? Será que temos medo de não sermos aceitos exatamente como somos?

Quando a lógica da produtividade invade a intimidade

Para quem trabalha com tecnologia ou em ambientes de alta exigência cognitiva, essa lógica é familiar. Passamos o dia tentando reduzir fricções, automatizando processos e eliminando etapas para produzir melhores resultados em menos tempo. No ambiente profissional, a eficiência é uma virtude. O problema surge quando transportamos essa mentalidade para dimensões da vida que não funcionam como um sistema operacional. Relacionamentos não obedecem a dashboards e a vulnerabilidade não pode ser transformada em indicador de performance sem que algo essencial se perca.

A tentação é compreensível. Após um dia exaustivo tomando decisões e administrando expectativas, escrever uma mensagem para um desconhecido pode parecer apenas mais uma demanda cognitiva. Mas há uma diferença fundamental: naquele momento, não deveria ser o profissional eficiente tentando acertar mais uma entrega, mas você tentando ser visto como pessoa, sem cargos ou apresentações ensaiadas.

O avanço dos “assistentes românticos” pode revelar algo mais profundo do que apenas o progresso tecnológico: nossa necessidade de manter o controle, inclusive diante de outra pessoa. Existe uma distinção importante entre usar a IA para organizar o que queremos dizer e entregar a ela a responsabilidade de decidir como nos apresentamos emocionalmente. No primeiro caso, a ferramenta amplia nossa expressão; no segundo, ela atua como um escudo contra a vulnerabilidade.

A IA como um possível escudo contra a vulnerabilidade

Imagine copiar uma conversa e pedir a uma IA: “Escreva uma resposta confiante e divertida, sem parecer desesperado”. O resultado será competente, talvez até melhor do que algo escrito por alguém cansado às 23h de uma terça-feira. Mas quem está sendo conhecido do outro lado da tela? Você ou uma versão linguisticamente otimizada de si mesmo?

Recorrer à IA pode ser uma estratégia para diminuir a ansiedade provocada pela incerteza e pelo medo da rejeição. Contudo, todo encontro humano contém uma variável impossível de eliminar: o risco de não sermos correspondidos. Podemos escolher as palavras ou o melhor horário, mas não podemos controlar o desejo do outro. É justamente essa ausência de controle que torna a vulnerabilidade tão desconfortável e, ao mesmo tempo, tão humana.

Um paradoxo curioso surge quando a percepção de que a conversa foi criada por IA reduz o interesse de quem recebe a mensagem. Usamos a IA para parecermos mais interessantes, mas a percepção de que as palavras foram terceirizadas pode destruir a autenticidade buscada. O atalho criado para facilitar a conexão pode, paradoxalmente, produzir distância.

Alto funcionamento não significa conexão

Para profissionais de alta performance, o risco é o esgotamento. Podemos entregar projetos, mudar de país e manter agendas cheias, mas ainda assim estarmos emocionalmente exaustos. Automatizar a comunicação afetiva oferece a sedução do controle, mas relações significativas dependem justamente do que não conseguimos prever.

A tecnologia não precisa ser a vilã. Ela pode ajudar a organizar pensamentos ou superar aberrações linguísticas. A questão central é saber em que momento a ferramenta deixa de ampliar nossa capacidade de expressão para começar a substituir nossa própria voz.

Estamos vivendo um momento onde temos capacidade infinita de filtrar e otimizar interações, mas continuamos buscando algo que nenhuma tecnologia automatiza:

  • a sensação de sermos genuinamente vistos. No fim, a conexão exige presença, e presença exige o risco de ser imperfeito.

Antes de pedir à IA a frase perfeita, talvez valha perguntar:

  • o que estou tentando proteger ao automatizar minha vulnerabilidade?
  • E se eu preciso de uma versão otimizada para ser aceito, quem exatamente está sendo aceito?

O avanço da inteligência artificial aplicada aos relacionamentos não é uma questão tecnológica é comportamental. Quando automatizamos até o flerte, estamos terceirizando não apenas a comunicação, mas o risco de sermos vistos por quem de verdade importa. A eficiência pode nos proteger da rejeição, mas também nos distancia daquilo que torna as conexões reais: a vulnerabilidade compartilhada.

No fim, a pergunta não é se a IA ajuda ou atrapalha. É se, na próxima mensagem que você precisar enviar, você abre o teclado ou abre a aplicação primeiro. E se o medo não é a frase perfeita, mas a imperfeição que a torna humana.

Já percebeu essa tentação de automatizar a comunicação quando a energia mental chega ao fim no final do expediente?

Como tem sido lidar com o cansaço social no seu dia a dia no exterior?

Quando foi a última vez que enviou uma mensagem importante sem pensar excessivamente em como soar?

Alexandre Bartoli Monteiro

Psicólogo, professor e pesquisador. Atuação em saúde mental, trabalho e tecnologia, com atenção a profissionais de tecnologia e brasileiros no exterior.

CRP 04/86889


Referências

KINSEY INSTITUTE. Singles in America (SIA) Study. Indiana University. Disponível no site do Kinsey Institute. Acesso em: 24 set. 2026.

MATCH; KINSEY INSTITUTE. Match and The Kinsey Institute Unveil 14th Annual Singles in America Study. 2025. Divulgação do estudo Singles in America 2025. Acesso em: 24 set. 2026.

TEDESCHI, Vitória. ChatGPT no Tinder? Como a inteligência artificial está mudando o flerte online. Fast Company Brasil, 14 jul. 2025. Disponível em: https://fastcompanybrasil.com/tech/chatgpt-no-tinder-como-a-inteligencia-artificial-esta-mudando-o-flerte-online/. Acesso em: 24 set. 2026.

MORAES, Vinicius de; POWELL, Baden. Samba da Bênção.

Sobre o autor

Alexandre Bartoli

Psicólogo clínico, CRP 04/86889. Atendimento psicológico online para adultos, em português do Brasil, com abordagem clínica em Terapia Cognitivo-Comportamental.

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