Con il divieto delle scommesse online, quale sarà la tua valvola di sfogo a fine giornata lavorativa?

Alexandre Bartoli · Psicologo · CRP 04/86889

Em 25 de setembro de 2026, uma Medida Provisória proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das bets no Brasil.

Naturalmente, a decisão abriu discussões jurídicas, econômicas e políticas. Mas existe uma pergunta que me interessa particularmente como psicólogo e como alguém que trabalhou durante anos com desenvolvimento de software.

O que acontece com a necessidade de apostar quando a aposta deixa de estar disponível?

Porque retirar o aplicativo do celular não necessariamente retira aquilo que fazia uma pessoa abri-lo várias vezes ao dia. E talvez seja exatamente neste momento que começa uma conversa sobre saúde mental, trabalho e tecnologia.

Não estamos falando de um comportamento periférico daquele sujeito, mas de algo que pode começar a ocupar espaço relevante em sua rotina, em suas emoções e na forma como ele tenta lidar com o próprio sofrimento.

Em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam realizado apostas nos doze meses anteriores à pesquisa apresentada pelo Ministério da Saúde. Desse grupo, 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.

O Ministério da Saúde também informou que, entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram aproximadamente 140% no SUS. Há ainda outro número que chama atenção.

Mais de 1,3 milhão de brasileiros já haviam solicitado autoexclusão das plataformas de apostas. Entre aqueles que tomaram essa decisão, 51% relacionaram a iniciativa diretamente a problemas de saúde. São números importantes. Mas eles ainda não respondem a uma pergunta psicológica fundamental: O que a aposta estava fazendo por aquela pessoa?

Não estou falando do resultado financeiro. Estou falando da função que aquele comportamento começou a ocupar em sua vida.

Às vezes, o expediente termina, mas a mente continua trabalhando. Quem trabalha com desenvolvimento de software, dados, infraestrutura, segurança, produto ou outras áreas de tecnologia conhece uma experiência bastante particular.

Você pode encerrar o expediente e continuar trabalhando mentalmente. O computador foi fechado, mas o problema que você estava tentando resolver continua sendo processado. A mensagem que chegou perto do fim do dia permanece na cabeça.

O erro encontrado continua pedindo uma solução, e você ainda não teve tempo para arrumar. Existe ainda a atualização que precisa ser estudada, a ferramenta de inteligência artificial que apareceu naquela semana, a reunião do dia seguinte e aquela sensação persistente de que sempre há alguma coisa nova que você deveria estar aprendendo.

Isso não significa que trabalhar com tecnologia produza dependência de jogos ou apostas. A ciência não permite fazer essa afirmação.

Mas existe um conceito importante para compreender parte dessa experiência: o tecnoestresse.

Pesquisas com trabalhadores mostram associação entre demandas relacionadas à tecnologia, burnout e sintomas de ansiedade e depressão. Outro estudo, realizado com uma grande amostra de trabalhadores alemães, encontrou uma associação particularmente interessante: quanto mais frequentes eram as interrupções provocadas pela tecnologia durante o trabalho, mais intensos eram os sintomas de burnout.

A tecnologia que facilita o trabalho também pode ampliar interrupções, disponibilidade permanente e sobrecarga cognitiva. E então chega o fim do expediente.

Você fecha o sistema de trabalho. Mas continua na mesma tela. Talvez esse seja um dos paradoxos do trabalho contemporâneo. Durante oito horas, ou mais, a tela é o lugar da exigência.

Depois, ela se transforma no lugar do alívio. Você encerra o ambiente de desenvolvimento, o Jira, o Teams ou o Slack.

Poucos segundos depois, no mesmo computador ou no celular ao lado, abre um jogo, uma rede social, uma plataforma de vídeos, uma loja virtual ou, até recentemente, uma plataforma de apostas. A atividade mudou, só que a tela não.

É nesse ponto que a relação entre tecnologia, jogos e apostas fica particularmente interessante e preocupante e demanda atenção.

A Organização Mundial da Saúde reconhece tanto o transtorno relacionado a apostas quanto o transtorno relacionado a jogos digitais entre os transtornos devidos a comportamentos aditivos. Isso não significa que jogar videogame seja um problema.

Muito menos que toda pessoa que joga apresente algum transtorno. A própria OMS ressalta que apenas uma pequena parcela das pessoas que jogam desenvolve transtorno relacionado a jogos. O problema aparece quando existe perda de controle, quando aquela atividade começa a receber prioridade sobre outros aspectos da vida e quando o comportamento continua apesar de consequências negativas significativas.

Portanto, a pergunta mais interessante talvez não seja quanto uma pessoa joga. Pode ser por que ela precisa jogar naquele momento. O que ele deseja não pensar ? Será que é estresse, solidão, jogos e apostas.

Uma pesquisa longitudinal publicada em 2024 acompanhou 1.530 pessoas na Finlândia e investigou justamente as relações entre estresse, solidão, problemas com jogos digitais e problemas com apostas.

Os resultados mostraram associação entre níveis maiores de estresse e problemas relacionados tanto às apostas quanto aos jogos digitais. A solidão apareceu particularmente associada aos problemas relacionados aos jogos.

Isso não permite afirmar que estresse ou solidão automaticamente provocam uma dependência. Mas permite investigar uma questão que considero muito mais interessante.

O que acontece quando determinadas atividades digitais começam a ser utilizadas repetidamente para aliviar estados emocionais difíceis?

É diferente jogar porque você gosta de jogar e perceber que precisa jogar todas as noites porque não consegue permanecer alguns minutos com aquilo que sente depois do trabalho.

É diferente fazer uma aposta ocasional ( fazer aquele fé na Mega Senna da Virada) e perceber que a excitação produzida pela aposta se tornou uma das poucas maneiras de interromper pensamentos que continuam funcionando mesmo quando o expediente terminou.

A diferença pode estar menos no aplicativo utilizado e mais na função que aquele comportamento passou a exercer. Jogos e apostas estão cada vez mais próximos

Existe ainda outra mudança relevante que não podemos esquecer. A OMS chama atenção para uma crescente convergência entre jogos digitais e apostas favorecida pela internet.

Mecânicas de recompensa, monetização, eventos aleatórios e outros elementos podem aproximar experiências que antes pertenciam a universos mais separados. A própria OMS observa que essa convergência pode favorecer tanto a passagem entre determinados comportamentos quanto a coexistência de problemas relacionados a jogos e apostas.

Mais uma vez, isso não significa colocar videogames e bets na mesma categoria prática ou afirmar que uma atividade necessariamente conduz à outra. Significa reconhecer que vivemos cercados por ambientes digitais capazes de oferecer recompensas rápidas, repetidas e disponíveis praticamente o tempo inteiro.

E isso merece atenção quando encontramos alguém emocionalmente exausto tentando descobrir como desligar a cabeça.

E quando essa pessoa também está longe do Brasil?

Para brasileiros que trabalham com tecnologia no exterior, existe uma camada adicional que muitas vezes fica invisível. Trabalhar em outro país pode significar lidar diariamente com outro idioma, códigos culturais diferentes, fusos horários, distância da família e reconstrução da rede social.

Em algumas situações migratórias, a estabilidade profissional também está relacionada à possibilidade de permanência no país. O trabalho passa, então, a representar muito mais do que salário.

Ele pode significar estabilidade familiar, projeto migratório, pertencimento e a confirmação íntima de que a decisão de deixar o Brasil valeu a pena. Nesse contexto, admitir cansaço pode ser difícil.

Diminuir o ritmo pode parecer perigoso, porque sempre tenho o medo de voltar para o Brasil. E pedir ajuda pode ser adiado porque, externamente, tudo parece estar funcionando.

Enquanto isso, aquela pessoa continua participando das reuniões, ela continua entregando as atividades, continua resolvendo problemas, continua pagando as contas e continua construindo sua vida fora do país.

Só que estar funcionando, não é sinônimo de ausência de sofrimento. O Brasil também está vendo o custo do adoecimento mental no trabalho. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais.

Foi um crescimento de 15,66% em relação ao ano anterior. Esse número não deve ser utilizado para afirmar que o trabalho causou todos esses transtornos. Seria uma conclusão que os dados não permitem.

Mas ele evidencia a dimensão que o sofrimento mental alcançou entre pessoas em idade produtiva. E existe uma fase anterior ao afastamento que raramente aparece nas estatísticas.

É quando a pessoa ainda trabalha. Ainda produz. Ainda participa das reuniões. Ainda entrega aquilo que esperam dela.

Mas começa a construir pequenas formas de desaparecer por alguns minutos.

  • Talvez seja o jogo.
  • Talvez seja a aposta.
  • Talvez sejam compras.
  • Talvez sejam vídeos curtos por horas.
  • Talvez seja permanecer indefinidamente nas redes sociais.

O comportamento pode mudar, só que a nossa pergunta continua a mesma.

  • O que essa pessoa está tentando interromper quando busca aquele estímulo?

Proibir uma válvula de escape não elimina necessariamente a necessidade de escapar. A proibição das bets modifica radicalmente o acesso a uma dessas possibilidades.

Do ponto de vista da saúde mental, porém, existe uma questão que permanece, e que ninguém esta querendo falar.

Se determinada pessoa utilizava a aposta repetidamente para reduzir tensão, interromper pensamentos, produzir excitação ou escapar temporariamente de um estado emocional desagradável, o desaparecimento daquela plataforma não necessariamente resolve aquilo que acontecia antes de ela abrir o aplicativo.

Pode simplesmente deixar uma lacuna. O que vai tomar esse lugar ?

E uma lacuna pode ser preenchida por outra coisa. Por isso, talvez seja insuficiente perguntar apenas como impedir alguém de apostar. Também precisamos perguntar o que tornou aquela aposta tão necessária para aquela pessoa.

Quando pensamos nessa pergunta com mais atenção, percebemos que a questão é muito mais profunda. Em vez de olhar apenas para o comportamento, começamos a observar aquilo que o antecede.

  • A pressão.
  • A ansiedade.
  • A solidão.
  • A dificuldade de descansar.
  • A sensação permanente de disponibilidade.
  • O medo de perder espaço profissional.
  • A necessidade de continuar funcionando.
  • E, para algumas pessoas, a dificuldade de permanecer em silêncio depois que todas as notificações finalmente param.

Quando você desligar o computador/notebook, o que acontece com você?

Talvez essa seja a pergunta que permaneça depois da proibição das bets.

Você realmente encerra o expediente ?

  • Fecha o notebook.
  • A tela escurece. Medo de ter esquecido alguma coisa.
  • Mas a sua cabeça também consegue encerrar o dia?
  • Ou você precisa imediatamente de outro estímulo para ocupar o lugar que o trabalho acabou de deixar?

A discussão sobre apostas pode começar em economia, legislação e saúde pública. Mas ela também nos oferece uma oportunidade para investigar algo muito próximo da vida cotidiana. Não apenas aquilo de que estamos tentando nos afastar. Mas por que se tornou tão difícil simplesmente permanecer conosco quando o expediente termina.

E na sua rotina, o que acontece quando desliga o computador/notebook ?

Você consegue realmente se desconectar ou percebe que rapidamente procura outra tela, outro estímulo ou alguma atividade que ajude a ocupar a mente?

Quero continuar investigando aqui a relação entre saúde mental, trabalho, tecnologia, jogos, comportamento digital e a experiência de brasileiros que vivem e trabalham fora do país.

Se esses temas fazem parte da sua vida ou do seu trabalho, siga meu perfil para acompanhar os próximos artigos.

E quero também conhecer sua experiência.

O que mais dificulta desligar a sua cabeça depois do expediente?

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Alexandre Bartoli Monteiro

Psicólogo, CRP 04/86889

Atuação em saúde mental, trabalho e tecnologia, com atenção a profissionais de tecnologia e brasileiros no exterior.

Referências utilizadas

  • Organização Mundial da Saúde. Addictive behaviour e Gaming disorder.
  • Ministério da Saúde. Dados sobre apostas online, transtorno do jogo e demanda do SUS.
  • Ministério da Justiça e Segurança Pública. Dados da plataforma de autoexclusão.
  • Fundacentro e Ministério da Previdência Social. Benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais em 2025.
  • Vuorinen I, Savolainen I, Sirola A, Oksanen A. The impacts of stress and loneliness on gambling and gaming problems: A nationwide longitudinal study. International Journal of Social Psychiatry, 2024.
  • Consiglio C, Massa N, Sommovigo V, Fusco L. Techno Stress Creators, Burnout and Psychological Health among Remote Workers during the Pandemic, 2023.
  • Meyer S C, Tisch A. Exploring the Relationship Between Techno Unreliability at Work and Burnout, 2024.

Informazioni sull'autore

Alexandre Bartoli

Psicologo clinico, CRP 04/86889. Consulenza psicologica online per adulti, in portoghese brasiliano, con approccio clinico basato sulla Terapia Cognitivo-Comportamentale.

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