
A regulamentação das plataformas de apostas digitais (bets) no Brasil e a busca por mecanismos formais de autoexclusão trouxeram à tona uma decisão importante: o momento em que a pessoa reconhece a necessidade de interromper um ciclo compulsivo.
Contudo, como psicólogo, ex desenvolvedor de software e professor universitário na área de tecnologia, conheço de perto a rotina de profissionais que passam o dia lidando com problemas complexos, decisões rápidas, prazos, pressão por resultados e uma exigência constante de atenção. Nesse contexto, é comum levar para a própria vida a mesma lógica usada no trabalho: identificar o problema, encontrar a causa e buscar uma solução rápida. Quando surgem comportamentos compulsivos, ansiedade ou dificuldade de se desligar, a tendência pode ser tratar tudo como se fosse apenas mais um problema técnico a ser corrigido, quando, na prática, o funcionamento psicológico costuma exigir uma compreensão mais ampla do que está acontecendo.
Na prática clínica, desinstalar aplicativos ou bloquear acessos atua como uma contenção inicial necessária. Mas se a sobrecarga de trabalho, o tecnoestresse e a necessidade de anestesiar a mente ao fechar o notebook permanecerem sem compreensão, a tendência é que o cérebro continue buscando outras válvulas de escape para despressurizar a tensão.
Para quem atua no setor de tecnologia, esteja no Brasil ou no exterior, a rotina pode envolver plantões on call, reuniões em outros fusos, comunicação em outro idioma, pressão por disponibilidade e, em alguns casos, o esforço adicional de adaptação cultural. Por isso, quando há um transtorno relacionado ao jogo, a compreensão clínica precisa considerar não apenas o comportamento em si, mas também as condições concretas de trabalho, de vida e de inserção social dessa pessoa.
1. Mapeando as Distorções Cognitivas da Mente Exausta
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) abordagem de ampla evidência científica no tratamento do transtorno do jogo atua na identificação e reestruturação de pensamentos automáticos que sustentam o impulso de apostar:
- A Ilusão de Controle: A tendência de acreditar que, por dominar dados, lógica ou sistemas, seria possível prever padrões ou obter uma “vantagem técnica” em eventos aleatórios.
- A Falácia do Apostador: A interpretação equivocada de que uma sequência de perdas torna a vitória “estatisticamente iminente”.
- A Perseguição de Perdas (Chasing): O impulso de continuar apostando não mais pelo ganho, mas na tentativa urgente de reaver o valor perdido e apagar a culpa.
Compreender esses padrões sob a ótica clínica permite ao indivíduo desenvolver estratégias realistas para o manejo dos impulsos, sem promessas de controle mágico ou soluções imediatas.
2. A Transição da Mesma Tela e o Manejo do Ambiente
Para o profissional de tecnologia, a jornada de 8 a 10 horas diante do computador (alternando entre Slack, Jira e IDEs) mantém o sistema nervoso em estado de alerta permanente. Ao encerrar o expediente, a transição para a aposta ou o jogo na mesma tela surge como uma tentativa desorganizada de buscar um pico rápido de dopamina para “desligar” o cérebro.
O acompanhamento psicológico auxilia na reestruturação do ambiente e no controle de estímulos:
- Barreiras Práticas: Ativação de ferramentas oficiais de autoexclusão e limitação do acesso a recursos financeiros.
- Rituais de Desconexão: Construção de rituais claros de transição pós-expediente, interrompendo a associação automática entre a tela de trabalho e a busca por anestesia digital.
3. Compreendendo a Função Emocional: O que a aposta estava anestesiando?
Tratar o uso problemático de apostas requer investigar a função que esse hábito cumpria na rotina:
- Funcionava como válvula de escape para o estresse crônico de um ambiente de alta cobrança?
- Atuava como tentativa de compensar o isolamento do trabalho remoto e a distância da rede de apoio no exterior?
- Era uma forma de lidar com a ansiedade silenciosa relacionada ao visto e à permanência fora do país?
Ao compreender que o comportamento aditivo operava como um anestésico para o esgotamento, a psicoterapia possibilita a construção de recursos saudáveis para a regulação emocional e o autocuidado.
4. Uma Escuta Qualificada que Compreende o Seu Universo
Superar o ciclo da compulsão exige um espaço seguro de escuta onde a pessoa não precise “explicar do zero” o que significa o peso de uma entrega sob pressão internacional, a cobrança por atualização constante ou a dor da solidão migratória.
A intervenção clínica pode envolver o suporte integrado com médicos psiquiatras (quando há necessidade de avaliação para quadros associados de ansiedade, depressão ou insônia), participação em grupos de apoio (como Jogadores Anônimos) e o acompanhamento psicoterápico individual em português.
Cuidado Clínico e Responsabilidade
Continuar entregando resultados no trabalho não significa estar bem por dentro. Buscar ajuda especializada é um passo fundamentado em coragem e responsabilidade para compreender a origem da tensão diária e reestruturar a relação com a rotina, o trabalho e a vida.
E na sua rotina? Como costuma ser a transição no momento em que você fecha o computador ao final do expediente? Você já percebeu essa necessidade quase automática de buscar outro estímulo ou tela para conseguir “desligar” a cabeça?
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Alexandre Bartoli Monteiro
Psicólogo | CRP 04/86889
ℹ️ Aviso Ético e Psicoeducativo: Este conteúdo possui finalidade exclusivamente informativa e educacional. Não substitui a avaliação psicológica individualizada realizada por profissional habilitado.
🆘 Canais de Apoio e Emergência:
No Brasil: Em situações de crise, entre em contato com o CVV (188), procure um CAPS AD ou a UBS da sua região. Em emergências graves, acione o SAMU (192).
No Exterior: Acesse o serviço de urgência em saúde mental ou o número de emergência do país onde você reside.